Maria Rachel Coelho: Cidadania e justiça!

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Parintins 2012 - II
Atualizada em 18/07/2012

Não existe nada igual! Vai ver que é isso que nos faz entender 30 mil pessoas na última semana de junho deixarem Manaus e navegarem 420 km de barco pelo Rio Amazonas para fazer farra e torcer pelos bois Caprichoso e Garantido.

Você vê uma explosão de talento, energia e organização numa Ilha isolada e absolutamente encantada! É melhor que peça, desfile, ópera, balé, campeonato, é o maior espetáculo que existe neste nosso Brasil!

Você até se pergunta: como pode? Como pode uma Ilha isolada no meio da Floresta fazer um espetáculo mais bonito que o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro? Como pode você agüentar seis horas de apresentação todos os dias e ainda querer mais? Como pode você passar alguns dias numa cidade tão simples e querer continuar?

É um grande espetáculo ao ar amazônico no qual se encena a lenda de um boi que é morto e depois ressuscitado por um pajé e o homem que matou o boi é capturado por uma tribo de índios. O ritmo é a toada, lento e cadenciado, lembra alguns rituais indígenas, e com uma batida amazônica na levada.

Muito mais emocionante que as Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Em primeiro lugar pela luz de show. Além dos refletores do bumbódromo, os bois usam spots coloridos, montados em torres com rodinhas, para variar cor, foco e intensidade ao longo do espetáculo. Em muitos momentos, a apresentação é iluminada apenas por velas acesas na arquibancada, fogos de artifício e fumaça colorida. É muito mais bonito que réveillon na praia de Copacabana.

Em vez de passarela, os bois têm arena, o que muda totalmente a natureza da apresentação. As escolas de samba, só podem andar para a frente, já os bumbás podem variar infinitamente a maneira de entrar, as coreografias e o modo de ocupar o "palco".

Os bumbás também podem contar com uma variedade de músicas. No lugar de repetir o mesmo samba-enredo o desfile inteiro, os bumbás lançam todo ano doze toadas, que são cantadas em momentos diferentes da apresentação. Eles também podem trazer de volta toadas clássicas, consagradas em festivais passados. É como se os puxadores das Escolas de Samba pudessem cantar sambas-enredo finalistas de carnavais passados.

A quarta diferença dos bois com relação às escolas de samba é a galera. Cada bumbá tem 15 mil pessoas na arquibancada, ensaiadas e animadas como você nunca viu em nenhum estádio brasileiro, pulando e fazendo coreografias impecáveis três horas sem parar. Não dá para não se arrepiar.

Um detalhe: os apaixonados por seu bumbá nunca pronuncia o nome do outro boi, refere-se a ele apenas como "o contrário".

O que se vê no Bumbódromo, é o sincretismo de quase todas as religiões nacionais. A cada noite os dois bumbás fazem um espetáculo totalmente diferente. Muda o tema, mudam as cores, mudam as coreografias e as alegorias. Daria para dizer que você assiste a três cerimônias de abertura das Olimpíadas por noite, mas isso seria tremendamente injusto com os bumbás, já que o Festival de Parintins põe qualquer Olimpíada no chinelo.

Os bumbás têm apresentadores que vão narrando o espetáculo para que ninguém, do povão ou do júri, perca nenhum detalhe. Outra função dos apresentadores é cantar o número do quesito que está sendo julgado. "E olhem agora quem está chegando no alto da montanha! Concorrendo ao item 14: melhor pajéééé!". Hollywood bem que poderia copiar.

As alegorias vão sendo montadas em módulos. É inacreditável como se encaixam tão bem e sempre guardam uma surpresa. Geralmente, elas trazem escondidos os personagens mais importantes do boi: a sinhazinha da fazenda, a cunhã-poranga (a índia mais bonita da tribo), a rainha do folclore, o pajé, o próprio boi. A chegada de cada um desses personagens é saudada por uma salva de fogos de artifício e pelo delírio da torcida.

Os componentes (brincantes) vão entrando aos poucos, em tribos que dançam igualzinho aos índios do Xingu. Quando a arena finalmente fica cheia acontece o final apoteótico, com a encenação de um ritual indígena (que muda toda noite). Detalhe: enquanto a galera do boi que está se apresentando não pára no lugar por quase três horas seguidas, a outra metade do Bumbódromo precisa ficar estática, senão perde pontos.

Ao final dos três dias de apresentações, você sai achando que a construção do Teatro Amazonas pelos barões da borracha não foi nada perto do que você presenciou. Acredite: a ópera de Parintins é muito mais impressionante que a de Manaus.

Este ano tive a emoção de conseguir levar minha mãe. Surpresa, diz que nunca viu coisa igual. Nem queria voltar.

Sou Caprichoso desde que me entendo por gente e absolutamente fanática, mas excepciono o que os nativos dizem: que a opção por qualquer um dos bois não tem nenhuma relação com preferências futebolísticas ou partidárias. Partidárias eu concordo. É a única semana do ano que visto azul mas quando escolhi meu bumbá foi pela estrela na testa que para mim significava a estrela solitária do Botafogo. Nada tem a ver. Mas quando vi o Caprichoso entrar pela primeira vez, fiquei alucinada.

Durante o Festival, ninguém dorme na Ilha. Você fica dançando as toadas do boi em frente ao bar Chapão, tem azaração na orla que sai da Praça do Cristo, ou pega-se um sol na Soraia ou no Paraíso, à beira do lago Macurany. Ali no lago também é possível se fazer um passeio de barco contornando toda a Ilha.

Álbum:segundo dia do Festival, 30 de junho de 2012, que meu Boi levou! CAPRICHOSO CAMPEÃO 2012!