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Amazônia Século XXI – Sobre os Novos Amazônidas
Sandoval Amparo - 01/09/2010

Quando no segundo semestre de 2000 assisti à palestra da Bertha Becker, renomada geógrafa e professora do famoso e importante Departamento de Geografia da UFRJ era ainda um iniciante nas questões da Geografia ativa, literalmente, pois era calouro da UFF, e esta tinha sido a palestra inaugural da minha turma, tendo sido neste semestre que iniciamos nossa jornada por este importante rumo que é a Geografia. Confesso que sabia muito pouco sobre as coisas naquela época. Me fascinava as aulas do Carlos Walter (premiado Prof. Dr. Carlos Walter Porto Gonçalves, da UFF), a geomorfologia e os mapas e imagens de satélite do Rio de Janeiro expostos no Departamento de Cartografia e, principalmente, as atividades de campo, prática de extremada importância na formação do geógrafo qual seja o campo de atuação que tenha este escolhido.





Muito atento, mesmo sem saber direito de quem se tratava, lembro ainda hoje da exposição da Profa. Bertha, depois publicada em livro, mesmo tendo ficado um tanto triste com o fato de não termos pegado a palestra do Prof. Aziz Ab’Saber, talvés o mais importante geógrafo brasileiro da história (juntamente com o Milton Santos e Josué de Castro), que houvera feito preleção à turma que nos antecedeu em um semestre. Daquela palestra no auditório Milton Santos, no Instituto de Geociências da UFF, me lembro particularmente de dois pontos da exposição da Profa. Bertha que me chamaram a atenção. Ela alertava aos alunos que haviam ido para a geografia através de uma leitura romantizada da natureza que: 1. A geografia é, antes de tudo, uma ciência social; e 2. Que a Amazônia do século XXI é, finalmente, uma região dominada pelo pensamento urbano, tendo apresentado dados que mostravam a existência em toda a Amazônia legal de quase dois mil núcleos urbanos, com uma população total superior a 10 milhões de habitantes, milhares de veículos, e que destas cidades partem as políticas e ideogramas que foram e são aplicados na região.





A pertinência da observação da ilustre geógrafa, uma das fadas-madrinhas do sucesso e reconhecimento profissional que os geógrafos tem conhecido neste início de século XXI é notável. À excessão de Manaus, Belém e outros núcleos distantes fundados segundo um padrão militarista de uso de território, assim mesmo sempre associados à exploração de recursos como a seringa, a castanha e outros, a maioria das cidades amazônicas são de quarenta, cinqüenta anos pra cá, tendo sido fundadas no rastro da Expedição Roncador-Xingu, famosa expedição idealizada pelo Ministro João Alberto durante o governo Getúlio Vargas, em plena II Guerra Mundial (década de 1940), que ficou conhecida como a “ultima bandeira” realizada no Brasil, e que legou ao mundo a figura carismática dos irmãos Villas-Boas e a demarcação do Parque Indígena do Xingu, considerado como a grande obra duradoura deixada pelo efêmero e polêmico presidente Jânio Quadros, segundo Antônio Callado.





Pois bem, as cidades amazônicas do século XXI nada tem do paraíso idílico que ainda apaixona a milhares de jovens e senhores dos principais núcleos urbanos do Brasil litorâneo, do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. Ao contrário, constituem cidades que foram fundadas com o objetivo básico e já velho conhecido deste suado país, de inibir e se possível, extinguir a presença indígena do território, ou seja, estas cidades exercem grandes pressões sobre as áreas demarcadas para os índios. Aos poucos, toda grande extensão de terras amazônicas que não estão demarcadas são culturalmente dominadas por não-índios, de diferentes origens: sulistas, paulistas, goianos e maranhenses, dentre outros... De acordo com suas origens, estas pessoas, os novos amazônidas, assumem funções específicas neste processo incessante denominado de territorialização pelo querido antropólogo João Pacheco de Oliveira Filho, a continuidade do processo de branqueamento da população. Os sulistas na Amazônia constituem a exegese do processo de colonização ocorrido ao longo do século XIX no sul do país. São em sua maioria produtores de soja, trigo e grãos em escala industrial. De um modo geral abominam o índio e suas representações, que segundo eles, são preguiçosos e vagabundos, porque possuem muitas terras e nada produzem nelas, além de viverem sempre lhes trazendo prejuízos diversos, devido aos negócios que são fechados com base na exploração dos recursos da aldeia, mas que são sempre coibidos por iniciativa da Funai. Não raro ouve-se de alguns deles que coisas do tipo, se você gosta de índio, leva o Paiakan pra sua casa e dê de mamar a ele...






Goianos e mineiros são os produtores de gado e fazendeiros. Andam em suas caminhonetes e tão grande é a influência, que a maioria das cidades da Amazônia oriental, nos estados do Pará e Mato Grosso, parecem culturalmente mais ligadas a Goiânia que a Belém ou Cuiabá. Goiânia, de fato, é cidade onde possuem suas residências a maioria dos grandes fazendeiros desta região. E também onde o filhos mais nobres destas cidades se deslocam para cursarem suas faculdades de Direito, Odontologia e Medicina, e também de onde vem a maioria dos músicos de musica sertaneja que cruzam o sertão amazônico numa febre que faz com que milhões de residentes além dos próprios índios se deslocarem para as cidades quando rola um show do Bruno e Marrone ou Gino e Geno, dentre outros. Os brasilienses e pessoas vindas de outras capitais, como Belém, Cuiabá, Rio de Janeiro e São Paulo, vem geralmente para assumir funções destacadas no serviço público ou nas empresas mineradoras e outras que com os anos vão se instalando na região, afim de promover a exploração dos recursos. Disputam com os fazendeiros a categoria de elite local, pois são geralmente pessoas bem formadas, mas que não possuem o poder econômico e político, na mão dos primeiros.





Maranhenses, cearenses, nordestinos em geral, como reza a velha prática, são aqueles que assumem as funções mais árduas: são os trabalhadores braçais, os peões das fazendas, os garimpeiros do árdua labuta em condições precárias, os executores de aluguel, etc.
Nestas cidades, crescem vertiginosamente as periferias e favelas. No Pará, por exemplo, quase não há asfaltamento e serviços públicos efetivos: educação precária, saúde precária, membros dos poderes públicos precariamente mobilizados e as instituições públicas prevalece o interesse privado sobre o coletivo. Drogas, inclusive pesadas, que assolam os grandes centros, já se fazem presentes nestas cidades, e cada vez é maior o número de viciados em químicos como cocaína, que chega diretamente de países como Bolívia e Colombia através das inúmeras pistas de pouso clandestinas, e craque, a nova epidemia do século XXI. Nas festas organizadas por agroboys, caminhonetes com sons superpotentes ostentam a música de DJs famosos, mesclada a músicas regionais, como o calipso e outros ritmos. O consumo de álcool é algo muito comum, inclusive por crianças, bem como o uso de motos em quaisquer condições, sem capacetes ou quaisquer materiais de segurança. Jovens empinam suas motos como se fossem pipa na praça central de Tucumã, e ao invés de reclamações, são aplaudidos por aqueles que desejam imitá-los. As motocicletas são, juntamente com a caminhonete, os veículos mais encontrados nesta região, devido às facilidades e ao baixo consumo de combustível. O uso de capacete ou cinto de segurança é motivo de deboche, coisa de fresco, como por aqui se diz.





O índios, antigos moradores destes locais onde hoje se instalaram cidades como Redenção, Marabá, Tucumã, São Felix do Xingu, Canarana, Barra do Garças, dentre outras tantas, são mal vindos nestas cidades: tanto os agentes da Funai, em sua maioria com origens semelhantes aquelas descritas acima, quanto os regionais em geral, relatam que os índios estão perdendo sua cultura, que não querem mais ficar em suas aldeias, que agora só querem viver nas cidades, beber refrigerantes e cerveja, e andar em caminhonetes. Há aqueles que acreditam, equivocadamente, com base em fatos inverídicos, que os índios recebem cada um um salário da Funai, o que aliás, acham um absurdo, já que os índios vivem, segundo crêem, melhor que eles.
Em nossa dissertação de mestrado, defendida recentemente junto à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB, apresentamos nossa posição sobre este tema. A mesma está disponível para download no site do Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo daquela universidade. Não será o caso de abordá-la, pois a mesma trata de outra região que não a Amazônia. Entretanto, na parte em que faz uma abordagem geral das relações entre indigenismo e urbanização, defendemos que esta perspectiva é bastante conservadora e, agora, sem a pressão da banca ou de um trabalho acadêmico, diríamos até equivocada: a aldeia não é o lugar do índio, mas tem sua duração – ou pelo menos tinha – associada a um ciclo que envolvia a roça, a festa e o ritual, após o que migravam suas aldeias de lugar. Segundo Paulinho Paiakan, destacada liderança Kaiapó (mebengokré) e servidor da Funai qui em Tucumã, as aldeias dificilmente duravam mais que dois anos – a mobilidade era muito mais efetiva que a fixidez. Atualmente, sem ter mais para onde migrar dentro de um domínio fitoecológico, As aldeias acabaram por sedentarizar-se, ilhadas por cidades e fazendas que se situam ao longo de todas as terras indígenas demarcadas. Com isso, os índios não podem mais dar-se ao luxo de extinguir, dividir o grupo e fundar aldeias novas em locais distantes, como era típico de suas tradições, pois os locais para edificação de aldeias são cada vez mais escassos, sendo agora restritos à Terras Indígenas demarcadas.





Considere-se ainda que nenhuma terra indígena corresponde efetivamente aos territórios ancestrais de domínio de determinado grupo, sendo antes, a expressão de uma política autoritária até, que restringe os índios a estes territórios, e com base no que se funda o argumento preconceituoso exposto anteriormente, no qual o índios não quer mais viver nas aldeias. Infelizmente, muitas terras indígenas são a expressão de indigenistas positivistas e muitas vezes arbitrários, que objetivavam não mais que mostrar serviço, deixar um legado para seu reconhecimento diante dos índios.





Esse é, pois, o legado do século XXI. A Amazônia urbanizada que daria inveja aquele colega que uma vez disse, em tom de sátira que por ele, derrubava tudo e contruía um grande estacionamento na Amazônia, em tom de deboche contra um ambientalista chato que nos incomodava enquanto tomávamos nossa cerveja no Bar do Osama, em Niterói... A Amazônia do século XXI é marcada pelo medo e pela violência, é um esaço dominado pelo tiro, e os índios, ai, que será destes índios, o progresso avança assolador sobre seus costumes e terras ancestrais...
Por fim, concluímos com as palavras de Orlando e Claudio Villas-Boas, que pensaram esta região, o Xingu, como “novos São Franciscos” da integração nacional, remetendo talvés ao próprio modo oligárquico como a coisa ocorreu no nordeste agrário. Eis a palavra de ambos:

“O grande sertão do Brasil central, compreendido entre o rio Araguaia eseus afluentes da esquerda, a leste, o Tapajós com seus formadores a oeste, os chapadões mato-grossenses ao sul, e uma linha corresponde aproximada ao paralelo 4 (da latitude sul), que corta aqueles rios na altura dos seus grandes encachoeirados, com uma área de aproximadamente um mihão de quilômetros quadrados, até poucos anos era a região menos conhecida de todo o continente americano, talvez do mundo. Mas não era somente a vastidão deserta, aureolada de lendas e mistérios, que empolgava a imaginação e acendia o entusiasmo de todos ao iniciar-se o movimento desbravador da Expedição Roncador-Xingu. Com mais realismo, via-se também naquilo tudo um conjunto verdadeiramente formidável de recursos e condições indispensáveis para o completo desenvolvimento futur do país: na fecundidade das imensas glebas virgens, nas incalculáveis riquezas que deviam se acumular no solo e subsolo inexplorados, na impressionante pujança dos grandes rios centrais que, correndo de sul ao norte, transformar-seiam em novos “São Franciscos” da integração nacional. (Orlando e Claudio Villas-Boas, 1994, p.41-2)


Para os interessados, algumas referências:

A Marcha para o Oeste: a epopéia da Expedição Roncador-Xingu. Orlando e Claudio Villas-Boas, Ed. Globo, 1994.

Indigenismo e Territorialização: práticas, rotinas e saberes coloniais no Brasil contemporâneo. João Pacheco de Oliveira Filho (Org.). Ed. Contra-Capa, 1998.

Projeto Calha Norte: militares, índios e fronteiras. João Pacheco de Oliveira Filho & Antônio Carlos de Souza Lima. 1991, PETI/UFRJ.

Indigenismo ou colonização. Roberto Cardoso de Oliveira in Revista Civilização Brasileira, Ano IV. n. 19 e 20., P. 168-179.

A Amazônia e a política ambiental brasileira. Bertha Becker in Santos et alli. Território, Territórios: ensaios sobre ordenamento territorial. Ed. Lamparina, 2007.

A globalização da natureza e a natureza da globalização. Carlos Walter Porto-Gonçalves, Ed. Record, 2003.




*Sandoval Amparo



Geógrafo da FUNAI desde 2004, Msc. Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília,
com dissertação intitulada Sobre a organização espacial dos Kaingáng, uma sociedade indígena Jê meridional.
Reside em Tucumã, no sul do Pará, onde desenvolve atividades junto aos Kaiapó-Mebengokré.



mundolibertosemfronteira.blogspot.com


Fonte: Texto enviado pelo autor

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