Maria Rachel Coelho: Cidadania e justiça!

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A HISTÓRIA DOS GUARANIS DE CAMBOINHAS
Maria Rachel Coelho - 25/09/2008

UM POUCO DA HISTÓRIA DOS GUARANIS NO RIO DE JANEIRO

Nossos fundamentos para permanência dos índios Guaranis em Camboinhas não são apenas jurídicos. Do ponto de vista arqueológico e lingüístico não há dúvidas que eles viveram naquele local.

Inicialmente, cabe uma análise arqueológica que fundada em estudos e pesquisas que recuam para 40 mil anos Antes de Cristo comprovam a habitação indígena no nosso território. Assim como a língua que guarda vestígios do passado. Os topônimos marcam a influência indígena nessa região, podemos citar alguns exemplos da toponímia local como Itaipu (manancial entre pedras); Itapuca (pedra rachada); Piratininga (peixe seco a secar); Icaraí (água clara); Niterói (baía sinuosa); Guanabara (baía semelhante ao rio) e até mesmo Carioca que significa morada dos índios Carijó, que pertenciam ao ramo Guarani do litoral sul, muitos dos quais foram trazidos para o litoral do Rio de Janeiro pelos jesuítas. Todo Rio de Janeiro era habitado por índios Carijós, de filiação Tupi-Guarani.

Mas historicamente, o recôncavo da Guanabara, antes morada de centenas de indígenas e com dezenas de aldeias foi retalhado em sesmarias e loteado por engenhos de açúcar desde a metade do século XVI. Com a fundação da Vila de São Sebastião do Rio de Janeiro vastas sesmarias foram concedidas para a constituição do patrimônio da cidade incluindo parte da Baía de Guanabara e adjacências. Os índios assassinados e arrancados perderam a batalha no local. Fora do núcleo urbano estendia-se uma zona agrícola e pastoril com lavouras e campos de pastagens.

Na região onde hoje é Niterói, o processo foi diferente. No Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e no Arquivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, na Coleção Enéas Martins Pontes, 765, pasta 2, folhas 2 e seguintes, existem cópias de um documento cujo original encontra-se no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, onde pode-se comprovar a sesmaria doada pelo Governador Mem de Sá ao Cacique Araribóia e aos seus descendentes que falavam a língua da família tupi-guarani, em 16 de março de 1568, como recompensa pela ajuda na expulsão dos franceses do Rio de Janeiro.

A sesmaria doada estendia-se em uma légua de costa da chamada Praia Grande, hoje Niterói. O Núcleo central da aldeia era a encosta de um morro denominado depois de São Lourenço.

Por quase 300 anos essas terras abrigaram as gerações de Araribóia embora parte delas fossem loteadas gratuitamente entre os foreiros.

Por deliberação do Governo Provincial em 1866 foi decretada a extinção da Aldeia de São Lourenço sobre a alegação de que as pessoas que ali residiam de índio só tinham o nome, argumento antigo usado para se apropriarem das terras.

Mas até o ano de 2005 a Prefeitura de Niterói continuava cobrando “laudêmio do índio”. Embora esse dinheiro nunca tenha chegado a eles, era o reconhecimento pelo próprio Município dos verdadeiros donos das terras.

Em 1994, arqueólogos, sugeriram a promoção do turismo arqueológico na cidade com visitas guiadas aos sambaquis, com base na Constituição Federal que considera os sítios arqueológicos pertencentes à União e Patrimônio Cultural Brasileiro e nas Leis 3.924/61 de Preservação dos Sítios Históricos Brasileiros e 6.513/77 de Proteção de Áreas de Interesse Turístico.

Para os que dão importância só ao dinheiro, é preciso que saibam que a presença dos Guarani favorece e valoriza a área se houvesse um envolvimento e um mínimo de investimento do Município em saneamento básico, e em apoio a projetos turísticos. Estava prevista para esse mês uma visita à Aldeia por 150 turistas, empresários franceses, interessados em conhecer e usufruir da cultura e sabedoria Guarani.

Os Guarani habitam mais de 100 Municípios em 10 Estados Brasileiros, são hoje 50.000 índios, além de habitarem também em território Paraguaio (53.500 índios); Boliviano (80.000); Argentino (42.073) e Uruguaio, onde são mais de 1.000, embora o estado não reconheça.

Do ponto de vista demográfico embora também tenham sido vítima do “HOLOCAUSTO INDÍGENA” é um povo que conta hoje com 225.000 índios. Além do Guarani, falam português e espanhol. Com uma profunda religiosidade e um discurso sobre essa prática religiosa, produzem literatura, música, artesanato e são conhecidos e respeitados no mundo inteiro como “Os Teólogos da Floresta”.

Aos criminosos ignorantes que tacaram fogo na Aldeia e que frequentemente ameaçam a paz das famílias indígenas de Camboinhas, às construtoras e preconceituosos que falam em “favelização da área” vai um recado e uma sugestão: os índios vieram para ficar e não estão sozinhos.

Porque não se desarmam, é uma honra a presença deles na área. Venham conhecê-los e escutar o Coral das Crianças Guarani.

Já dizia o Professor Darcy Ribeiro: ...”Ninguém que convive com os índios voltará a ser o mesmo”...

Experimentem.

Artigo publicado no Jornal do Brasil em 25/09/2008