Maria Rachel Coelho: Cidadania e justiça!

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Consumo Sustentável IX : Que futuro queremos?
Maria Rachel Coelho - 10/07/2012

Terminou a Rio+20 mas não nossa consciência e responsabilidade. Hoje temos muito mais pessoas conscientes do que 25 anos.

A AGENDA 21, documento assinado durante a Rio 92, deixou clara a preocupação com o impacto ambiental de diferentes estilos de vida e padrões de consumo:

“Enquanto a pobreza tem como resultado determinados tipos de pressão ambiental, as principais causas da deterioração ininterrupta do meio ambiente mundial são os padrões insustentáveis de consumo e produção, especialmente nos países industrializados. Motivo de séria preocupação, tais padrões de consumo e produção provocam o agravamento da pobreza e dos desequilíbrios”. (Capítulo 4 da Agenda 21).

E uma de nossas maiores conquistas, na Rio+20, foi a inclusão de padrões de produção e consumo sustentáveis no documento final, que vem sendo tão criticado.

Modificar nosso comportamento como consumidores. A sociedade precisa refletir sobre os impactos do consumo na degradação do meio ambiente.

A construção do padrão de desenvolvimento a que aspiramos deve estar norteada pela noção de crescimento econômico que não perca de vista a preocupação com o equilíbrio ambiental e com a justiça social.

E isso é urgente, dado que já consumimos hoje 35% a mais do que a Terra consegue renovar, e que 25% da humanidade consome mais do que o necessário, enquanto 75% consome o mínimo necessário ou abaixo desse mínimo, apenas a mudança no modelo de consumo permitirá a inclusão no mercado de consumo das enormes populações que a ele hoje não tem acesso.

Estamos diante de um modelo esgotado. Que não só mostra incapacidade para resolver as crises como também estão gerando mais crises. Ou se alteram os padrões de consumo ou não haverá recursos naturais ou de qualquer outro tipo, para garantir o direito das pessoas a uma vida saudável. Não será possível garantir ao cidadão o direito de acesso universal sequer aos bens essenciais.

A discussão da ciência é uma discussão de modelos e somente pela educação é que vamos transformar a palavra sustentabilidade em um valor da nossa sociedade. A educação é o grande caminho e é vista como a estratégia de mudança dos padrões de produção e consumo e de distribuição de renda e riqueza, levando em conta os limites da natureza, a equidade entre pessoas, regiões e gerações. E assim vamos chegar a um consumo com qualidade e com perspectiva ambiental.

É importante crescer mas com padrões e conteúdo. E não é uma questão de países ricos e desenvolvidos e pobres mas há uma desigualdade no consumismo dentro de um mesmo país.

Temos que aumentar o ritmo da mudança.

Então fazer o que?

Fazer tudo de uma outra maneira. Isso é que está embutido na palavra sustentável. Os países ricos tem que mudar a maneira de consumir para exigir menos do planeta e os pobres precisam se desenvolver de forma diferente. Mas como resolver um problema global por meio de lideranças divididas por fronteiras e soberanias? Há vontade política para mudar o cenário? como incluir os preços ambientais nos preços finais dos produtos?

..."O consumo tornou-se um lugar onde é difícil “pensar” por causa da sua subordinação às forças de mercado. Mas os consumidores não são necessariamente alienados e manipulados. Ao contrário, o consumidor também pode ser crítico, “virando o feitiço contra o feiticeiro”...

O consumidor também pensa e pode optar por ser um cidadão ético, consciente e responsável. Podemos atuar de forma subordinada aos interesses do mercado, ou podemos ser insubmissos às regras impostas de fora, erguendo-nos como cidadãos e desafiando os mandamentos do mercado. Se o consumo pode nos levar a um desinteresse pelos problemas coletivos, pode nos levar também a novas formas de associação, de ação política, de lutas sociais e reivindicação de novos direitos.

Escolher um carro econômico e que emite menos gases é essencial para o meio ambiente e para o seu bolso. Só que as montadoras não revelam essas informações aos consumidores brasileiros. Então, vamos exigir!

Como alternativa a esta economia de devastação, se queremos ter futuro, temos que adotar uma economia de preservação, conservação e sustentação da vida. Temos que produzir sim, mas a partir dos bens e serviços que a natureza nos oferece gratuitamente, respeitando o alcance e os limites de cada bioregião, distribuindo com equidade os frutos alcançados, pensando nos direitos das futuras gerações e demais seres da comunidade de vida.

Finalmente, a construção de padrões e níveis de consumo mais sustentáveis envolve a construção de relações mais solidárias entre diversos setores sociais, como produtores, comerciantes e consumidores.

Iniciativas de apoio a formas alternativas de produção (agricultura familiar e orgânica, reservas extrativistas, cooperativas de produtores, economia solidária etc.) precisam contar com uma ampla identificação e participação dos consumidores. Portanto, a busca de formas alternativas e solidárias na esfera da produção, articulando experiências bem sucedidas em “mercados limpos e justos”, podem e devem se aliar aos movimentos de consumidores, organizados na articulação de mecanismos de resistência, reorientação dos modelos produtivos e tentativas de interferência nas agendas hegemônicas.
As práticas de consumo podem ser uma forma de criação de redes de intercâmbio de informação e de aprendizagem do exercício da cidadania.