Maria Rachel Coelho: Cidadania e justiça!

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Consumo Sustentável
Maria Rachel Coelho - 15/04/2012

A produção crescente de produtos e serviços gera um grande problema ambiental mas é também a base da economia e principal indicador de riqueza adotado pela maioria das nações.

Até quando o planeta vai agüentar? Quais as alternativas ao modelo atual de produção e consumo?

A Rio+20 que será realizada em junho no Rio de Janeiro vai reunir chefes de Estados, especialistas e sociedade civil com o propósito de definir a agenda do desenvolvimento sustentável dos países para as próximas décadas.

E é unânime entre os especialistas que a redução do consumo é uma das formas de contribuir para preservação do planeta. Mas como vamos desacelerar esse processo de consumo?

Talvez a única alternativa para conseguir uma harmonia na relação entre os seres humanos com a natureza seja colocar de lado a idéia de crescimento como sinônimo de bem estar e crescimento da economia como sinônimo de progresso e encontrar novas definições para bem estar e de progresso.

O consumo excessivo já vem sendo discutido desde a Eco 92. Não é um tema recente na agenda mundial. Desde lá, colocou-se de forma bastante clara a necessidade de se ter novos conceitos de bens e de progresso, a necessidade de mudanças nos estilos de vida e também a busca por eficiência nos processos de produção.

A sociedade atual ainda vê o aumento de consumo como sinônimo de progresso. Os países desenvolvidos não querem rever seus padrões de consumo e os países em desenvolvimento querem novos padrões de consumo. Críticas existem também a imitação do padrão de consumo norte-americano.

E o padrão de consumo deve ser reduzido principalmente nos países ricos. Uma educação para o consumo dirigida principalmente às crianças, demonstrando por exemplo que o automóvel é uma "irracionalidade completa" há inclusive correlação entre a ineficiência crescente do transporte individual ao aumento do efeito estufa; assim como é necessária a construção de prédios que dependam menos de refrigeração e aquecimento, além da relocação da produção de alimentos tornando-a mais próxima dos consumidores.

Todos os especialistas no tema condenam o desenvolvimentismo que leva a um consumo acima da capacidade do planeta. Segundo eles, isso compromete os recursos naturais, e a proposta que trazem é a educação como forma de chamar a atenção da sociedade sobre o tema.
Além de relacionarem os padrões de consumo aos problemas ambientais do mundo chamam a atenção para a corresponsabilidade de governo, indústria, comércio e consumidores.

Ressaltam a necessidade de se implantar políticas para desestimular o consumo de produtos menos sustentáveis ambientalmente além de uma “ousadia” dos legisladores pois enquanto o consumo no Brasil cresce de forma “fenomenal”, as leis em defesa do meio ambiente progridem lentamente.
Também condenam os fatores como a obsolescência planejada, o uso irresponsável do crédito e a publicidade. O fator publicidade também agrava bastante a situação já que induz os consumidores e acaba por desenhar estilos de vida, principalmente a voltada para crianças.

Acreditam na possibilidade de mudança através da conscientização dos agentes envolvidos, mas é preciso apresentar alternativas que levem a mudanças de hábito e permitam a adoção de novos estilos de vida.

A discussão que se põe é quais seriam as formas de conduzir a humanidade a um padrão de redução de crescimento?

Uma das propostas é o chamado decrescimento que é tido como um conceito até intencionalmente mais impactante que o de desenvolvimento sustentável, porém necessário diante dos dados científicos. A humanidade está à beira do abismo, pisando no acelerador e nenhuma causa natural em um milhão de anos causou tanto efeito sobre a Terra. O consumo insustentável dos recursos naturais inexoravelmente vai acarretar a escassez e trazer aumento de conflitos armados. Além do mais, o aumento das desigualdades e a diminuição do nível de emprego atestam que índices tradicionais de desenvolvimento como o produto interno bruto (PIB) perderam o sentido.

A redução do consumo é uma questão urgente à qual as pessoas terão que se adaptar, “pelo bem ou pelo mal”.

Ponto em que todos concordam é que o esforço pela mudança de padrões de comportamento depende fundamentalmente da educação. Para isso também se faz necessário a ação dos gestores públicos no estímulo ao consumo consciente.

Está na hora de repensar o nosso modelo de produção e diminuir o consumo supérfluo e excessivo.

Outro ponto crucial dessa discussão é o comportamento antagônico do governo que ao mesmo tempo que desenvolve um programa como o PNRS (Programa Nacional de Resíduos Sólidos), estimula o consumo ao diminuir taxas de juros para a compra de automóveis e produtos da linha branca. O consumidor cada vez tem mais facilidade de acesso ao crédito o que também acaba o levando ao superendividamento. O governo tem evidente opção pela busca de crescimento econômico incessante, mas o momento é de se adotar uma visão mais realista do problema diante da escassez de recursos, substituindo o paradigma social de que consumo e crescimento são benéficos.

Nos dias de hoje vivemos um verdadeiro paradoxo de crise ecológica sem precedentes ao lado da manutenção da "ilusão" de um ideal desenvolvimentista. É necessário mais ética e altruísmo. As pessoas fazem parte de uma comunidade de vida mais ampla e dividem espaço com muitas espécies e mais do que nunca o cuidado com outras espécies significa a defesa da própria espécie humana.

É urgente rever os atuais padrões de produção e consumo para garantir uma sociedade sustentável.

O tema é preocupante e parece irrelevante embora possa ser percebido alguma preocupação e vontade de mudar. Talvez consumir menos signifique mais felicidade do que consumir tudo que se vê pela frente.

Assino esse artigo apostando em todas as alternativas trazidas por pesquisadores e especialistas da área mas acima de tudo numa reaproximação com a natureza, em um pouco mais de espiritualidade para afastar as pessoas dos apelos comerciais da propaganda e principalmente na valorização dos saberes ancestrais das populações indígenas.